quinta-feira, 1 de julho de 2010

Ofereça a outra face

Quão agradecido somos àqueles que nos atacam? Aos que levantam a voz para denunciar em nós aquilo que desagrada, que não confere com o “normal”, estamos agradecidos a estas pessoas?
Seja verdadeiro ou falso o enunciado contra nossa pessoa, já nos colocamos numa posição de total aceitação diante o agressor?

É importante estar atento a estas situações, já que encontramos nelas uma oportunidade rica, imensamente produtiva para nosso autoconhecimento e estudo intimo.

Pois sem o agressor como estaremos cientes da presença da vaidade, do desmedido auto-apreço por uma imagem construída? Aquele que nos agride, é digno de toda a nossa gratidão, por ser um espelho onde miramos nossos condicionamentos. E é digno de toda a nossa compaixão, já que, em verdade, está agredindo a si mesmo, pois busca no ataque ao outro uma maneira de negar e ocultar sua própria mediocridade, sua situação frágil e angustiante.

Em alguns momentos ser quem se é, e tão somente isto, já incomoda e muito. Mas se o outro ao agredir-nos produz em nós o desejo de revanche - que se manifesta como uma reação muscular de tensão – então aquela flor frágil e inquietada pelos ventos do medo – a quem tendemos chamar de inimigo - nos serviu naquele instante de Guru e vai nos ensinar onde ainda nos agarramos na pequena construção e manutenção da personalidade quimérica.

Recordo-me inevitavelmente de uma passagem no evangelho, onde lemos:

“Ouvistes o que foi dito: Olho por olho, e dente por dente: Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; (…) Eu, porém, vos digo; amai os vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem;”
Mateus, 5-38:44 (Sermão da Montanha)

A proposta do Cristo está presente também nos ensinos de Buddha, quando declara:
“Vencei o ódio com o amor, a avareza com a generosidade, o erro com a verdade, o mal com o bem.”

Dar a outra face é oferecer o SER diante do efêmero “parecer”. É manter-se fiel à Verdade transcendente da Unidade, o que não significa mera passividade e covardia. Declaramos a verdade que somos e vivemos em bom tom, com tranqüilidade, sem nenhum rancor, apego ou medo, simplesmente declare sua verdade íntima sem pretender que outros assumam para si aquilo que você considera verdadeiro.

Por que os outros não concordam contigo não significa que sua verdade seja uma mentira. Da mesma maneira, por não encontrar fundamentos sólidos na crença dos outros não devemos nos indispor com ninguém, pois a Verdade é muito ampla, e cada qual vai aperfeiçoando o seu olhar, a sua capacidade de abrangê-la (ainda que seja tarefa colossal pretender conhecer a Verdade inteira; diria até que isto é coisa de filme, do tipo “missão impossível”).

Quando resolvemos viver nossa verdade, obviamente encontraremos opiniões adversas as nossas e, algumas vezes, aquilo que acreditamos e vivemos pode parecer a outro algo ameaçador. Especialmente quando nossa verdade rompe com padrões morais muito rígidos e fortemente acoplados às mentalidades coletivas.

Se optar viver sua liberdade, esteja pronto a levar alguns tapas, esteja pronto a ser alvo do passatempo predileto dos covardes: a fofoca.

A fofoca é a afirmação do preconceito, e esteja atento, pois as histórias que contamos em fofocas sempre apontam para um vilão e uma vítima, no entanto estes papéis invertem-se conforme o interesse de quem conta.

Eu disse “histórias que contamos”, pois se somos vítimas de fofocas também podemos ser os fofoqueiros em outro momento. Percebo a seriedade que devemos dar a este assunto, já que este jogo de “atacar e defender” é somente mais um recurso psíquico e emocional para continuar dando manutenção ao sofrimento.

Atacando ou defendendo, procuro proteger a imagem do meu “eu”, miragem do desespero no deserto do medo.

Cristo foi alvo de fofocas, Buddha foi alvo de fofocas, Krishna foi alvo de fofocas, todos os grandes representantes da Verdade, do Amor, foram alvos prediletos de fofocas, algumas delas utilizadas como recurso de acusação e execução. Sim, afinal todo o julgamento e condenação do Cristo foram embasados nas fofocas e de maneira simbólica podemos interpretar que a fofoca é a inimiga número um do Amor.

Mas diante do ofensor, daquele que me amaldiçoa, posso ter uma atitude de bendizer e aceitar? Este é o ponto mais importante a se refletir. Penso que ao não oferecer resistência, quando não tomo minha própria defesa, estou defendendo o Amor e não a minha imagem artificial.
Enquanto não aprendo sobre o “desarmar” interno, não poderei saber o que é o amar incondicional.

Dentro das relações, se não consigo ouvir o outro, estar sensível ao que outro pensa e sente, sem gerar internamente contrações e mais contrações (defesas), não posso amar de fato: estarei me sentindo ameaçado pelo outro, ele pode ao apontar meus “desvios”, meus pequenos delitos, colocar em risco a imagem toda “perfeitinha” que tento passar aos outros sobre mim.
Esta sensação de ameaça nos arremessa diretamente à infância, ao dedo em riste de nossos pais apontando alguma traquinagem nossa. É um sentimento horrível de medo e desconfiança, de talvez não receber mais o amor de nossos pais.

E se aquilo que o outro aponta não for verdadeiro, dispensável é toda e qualquer defesa! Mais do que nunca devemos abrir nossos corações e lábios para declarar nossa verdade de forma tranqüila e sem receios.

O segredo é respirar.

Diante desta situação de ser vitimado pela fofoca ou mesmo dentro das relações quando somos chamados para dialogar e esclarecer algo, o segredo é não contrair os músculos, permanecer num profundo estado de relaxamento e abertura ao outro, não fugir das sensações desconfortáveis que podem surgir, nem se identificar com elas (o que resultaria numa defesa apaixonada e emocionalmente desequilibrada) e principalmente deixar acontecer o fluxo livre da respiração.
Neste estado de serenidade poderemos deixar clara nossa posição diante da vida e em caso de erro de nossa parte, admitir e pedir o perdão rapidamente. Este reconhecimento de nossa humana falibilidade remove um peso danado de nossas costas e nos faz livres para amar e receber o amor.

E quando penso neste peso que escoa das costas vem-me a memória outra passagem em que o Cristo nos diz:

"Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e meu fardo é leve."

Vinde ao EU SOU, vinde ao Amor e receba o alivio, o descanso.

Já não percebemos o tamanho do esforço que realizamos para manter uma imagem intocável sobre nós, o quanto é pesado parecer um alguém que não se é. Gastamos muita energia nisto.
Desista de carregar o fardo de parecer e o Amor acontecerá naturalmente.

É uma profunda entrega, uma desistência de si, da imagem projetada. Somente neste abandono no Ser Real é que poderemos ofertar a outra face e seguir abençoando todos os seres, bendizendo os da “oposição” e os amigos verdadeiros que nos acompanham na jornada.

Oferecer a outra face é uma atitude de extrema valentia e coragem. Não se deve confundir esta força de não-violência (Ahimsa) com passiva covardia. Há que se ter muita coragem para assumir quem se é, para libertar-se da necessidade de defender-se e simplesmente Ser.
Ninguém é dono da Verdade, todos nós é que pertencemos a ela.

Encontraremos o tapa e o ósculo, o apoio e a rasteira. Porém independente do beijo ou do escarro, possamos compreender de uma vez por todas que não existem inimigos: tudo e todos são aliados no Despertar, no transbordamento total onde apenas a Unidade prevalece.

O segredo para vencer as fofocas? Sê inteiramente verdadeiro e transparente!

Vida Plena!

Vajrananda (Diógenes Mira)

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