quinta-feira, 1 de julho de 2010

Sagrado coração-templo solar

Encontre uma posição confortável, sustente a coluna, encontre a estabilidade interior, aquele ponto divino onde se cruzam a firmeza e o relaxamento, passe a observar a respiração...o fluxo natural da vida entrando e saindo, permaneça ai neste estado de observação interna e sensibilidade pelo tempo que você sentir-se confortável...feche os olhos para ver de verdade...

...



Agora que você voltou a exteriorizar a consciência quem sabe o mundo não tem mais cores, sabores, perfumes, luzes... Enfim quem sabe o mundo não tem mais sentido agora.

A menor introspecção é suficiente para liberar uma alma, nos promete Sri Krishna no seu divino canto (Bhagavad Gita), temos nosso tempo de trabalhar, de diversão, de ler, escrever,para pagar as contas, temos tempo para namorar, para passear, para falar do outro...e quanto tempo temos dado para nós mesmos? Quanto tempo temos dado para simplesmente respirar e SER.

A menor introspecção é suficiente, fala o amado, mas na era sombria(kali yuga) nem mesmo estes poucos minutos podem ser cumpridos, estamos ocupados demais com a quantidade monstruosa de “tarefas importantes”.

Eu posso adiar meu encontro com Deus aqui dentro, mas estes compromissos todos, sociais e financeiros não podem ser adiados, eles garantem minha sobrevivência...o pior é que esta corretíssimo, os compromissos inadiáveis da vida quimérica, garantem a sobrevivência, mas o encontro com o divino em nós garante a VIDA!

E não é qualquer “vidinha” é vida plena, é vida abundante!
Mas pêra lá...vida abundante, isto é complicado demais, como posso conciliar a sobrevivência com a plenitude, elas parecem até contraditórias, eternas inimigas. É rir para não chorar, basta encontrar um alguém vivendo a VIDA e apedrejaremos este maluco imoral e pervertido, ele esta cuspindo em tudo aquilo que levamos séculos para construir, ele será muito perigoso, pois representará aquilo que mais tememos e evitamos: O NOVO!

Todos os grandes seres simplesmente rejeitaram a idéia de ser um “eterno buscador”, um “pecador em busca da perfeição”; viram diretamente, através da auto-revelação, que dentro estava a plenitude já realizada; se assim não o fosse teríamos de admitir que Deus erra;
Por favor, de atenção a isto! Se você esta imperfeito, incompleto, maculado e precisa encontrar a perfeição celestial , então aquele que te fez, errou os ingredientes e agora o resultado é que você foi responsabilizado pelo erro de outro!

Isto é loucura, o TODO perfeito só pode produzir perfeição, como seria possível que da perfeição viesse à luz imperfeição? A única maneira de responder positivamente a esta questão, seria construir uma idéia um tanto maluca, chamada “livre-arbítrio”.

Ou seja, se eu posso escolher, eu posso optar pelo mal, ou pelo bem, e este jogo só pode ser sustentado através de outra idéia ainda mais maluca, que existe um “eu”, claro, porque para que se possa escolher precisa existir “aquele que escolhe”, pronto, a coisa vai ficando ainda mais complexa, porque para que exista o que escolhe, a escolha e o escolhido precisa existir o “separado”, até mesmo para justificar que “eu existo”, estou escolhendo e sou diferente do “outro” , minhas escolhas me salvam, me condenam, me iluminam, me levam ao céu ou ao abismo!

O resultado imediato desta corrente de idéias não poderia ser outro: CONFLITO.
Sim, conflito com o outro que faz opções diferentes das suas, e principalmente conflito interno,consigo mesmo, porque as inúmeras forças que regem o seu existir, não estão nem aí para o seu código de regras e pecados-virtudes.

Perceba que a sociedade se sustenta na crença da separatividade, o que gera em seguida, hierarquia, castas, pirâmide social, fama, marginalidade,preconceitos, poderio, tirania, autoridade, controle, autoridade.

Autoridade irmãos...esta é uma palavrinha complicada, significa “fonte de poder”, ela se sustenta através da hierarquia, ela só existe porque pessoas se subordinam a outra, obedecendo incondicionalmente, matando a inteligência, que é por si só a capacidade de questionamento...porque os nossos ancestrais aceitaram isto?Porque continuamos aceitando isto?

Um homem se levanta e diz: “Eu sou o representante de Deus na terra!” Às vezes “eu sou Deus na terra”, e todos vendo que ele como todos, solta um espirro de vez em quando,solta pum, faz coco, xixi , tem medo de barata, tem sono, tem fome, enfim que ele é exatamente como todo mundo, porque aceita-se isto?

É duro, mas a resposta é patética, aceita-se por pura e risível PREGUIÇA!

Preguiça de pensar, preguiça de manter-se livre, manter-se atento, amoroso, disponível; a questão é que é mais fácil seguir uma serie de normas e mandamentos, a tentar solucionar estes conflitos que surgem nas relações e no ver-se a si mesmo.

Então, do que é que estamos falando? De obediência cega, de poder estabelecido, que é por si só uma das piores blasfêmias já construídas pelo homem, a obediência cega a autoridade máxima do lar o “pai”, o “diretor” na escola, o “chefe”, o “coronel”, o “sacerdote” com certeza o pior deles, pois é contraditório e falso desde o inicio!

Alguns dizem que isto nasceu dentro das comunidades monásticas, quando surgem os “superiores”, a piada triste é que “monos” significa UM. Como pode existir então uma unidade quando o exercício de poder e autoridade são vigentes?

Porque isto é assim? Para manter MAYA, sim, para dar sustento e manutenção a idéia de todos separados e todos pecaminosos, lutando por se tornar qualquer coisa diferente de sua verdadeira natureza, que já é realizada.

A ilusão, o poder das trevas, não é uma força espiritual maligna, querendo perverter as almas e levá-las todas ao inferno, este inferno já é realidade e foi construído em nome de Deus, e vai se desenrolando há milênios, e é justamente nossa educação religiosa que desdobrou-se em educação moral, social, política etc.

Todas as nossas leis estão alicerçadas na tabua dos dez mandamentos( não precisa ser a tabua de Moisés, qualquer código de conduta estabelecida por um suposto “escolhido divino”) , interessante aproximar estas duas palavrinhas tabua e TABU.

Tabu é tudo aquilo que é considerado inaceitável, proibido, bizarro dentro de uma determinada sociedade.O que classificaria isto? Claro nossas leis, nossos códigos de conduta mediunizados por algum “mensageiro divino” motivado por interesses políticos,pelo desejo de estar no todo da pirâmide, ainda estamos vivendo um êxodo difícil, saindo da escravidão do Egito, para um perambular pelo deserto onde é mais fácil trocar um poderio por outro, buscando as exteriorizações por preguiça de sentar e VER o que de fato somos, enfrentar as angustias e dores acumuladas pelo nascer e morrer é uma tarefa muito árdua, e admitir-se pleno demandaria a troca de um conjunto de idéias mal interpretadas sobre o que é ser um santo de Deus, o que é ser iluminado!

As águas foram abertas pelo milagre divino, aquilo que quero e vejo ser verdadeiro em mim e aquilo que devo obedecer e seguir cegamente, mas ao fazer a travessia desesperadamente corremos para o conhecido, para o VELHO.

Em busca daqueles modelos políticos de relacionamentos de uso, de pactos de lucratividade e hierarquização das relações. Em busca de uma possível felicidade de conto de fadas, onde todos viveram felizes para sempre ignorando a dor de todos os demais.

Seria interessante recordar que uma das perseguições difíceis a Sri Krishna e que o levou a ser assassinado foi a paixão de Radha, Krishna representava o tabu encarnado, para alguns o AMOR(sim o amor é tabu), como podia Krishna ser um Guru?Como poderia ser Deus encarnado na Terra? Ele tinha inumeráveis namoradas, era jovem, belo, andava com o peito nu, tocando sua flauta e dançando pelas ruas, isto não é um modelo de filho de Deus.
Lembre-se, Deus é o juiz-mor, o criador de todas as proibições, e seu filho deve ser um alguém muito sisudo cheio de:

“pode-não pode”.

Como se poderia aceitar um mensageiro assim, cheio de natural e espontânea alegria? Para piorar as mulheres estavam se apaixonando por ele, e Radha estava prometida em casamento, perceba a simbologia, ficar com o amor ou honrar o compromisso social, manter o patrimônio, a família, o patriarcado?

É interessante que o mensageiro do amor, o cupido venha trazendo flechas e não flores, amar envolve uma boa dose de sofrimento, de dor, uma vez que construímos toda uma sociedade pautada no suprimir da sensibilidade e do afeto em favor da posse, da estrutura separatista, da hierarquia!

Todo aquele que se levantou para viver o amor foi apedrejado, cuspido, escarnecido, flechado, queimado...a historia não o nega, e prova o quanto ainda estamos agarrados na busca pela CONTINUIDADE, a angustia infinita de saber-se perecível, impermanente, frágil, nos defendemos desta verdade invariável tecendo a teia do “eu” e fofocando a respeito do “outro”, este jogo nos entretém e nos mantém distraídos do medo de evaporar no tempo...lamentavelmente este medo da morte é maior do que o anseio pela VIDA, esta é a realidade e o selo da idade das trevas, quando o medo da morte congela nossa habilidade em amar sem exigir. Quando o amor deixa de ser a única lei, a única verdade, o único Deus. Então sabe-se que o esquecimento varreu a oportunidade de se meditar para saber-se quem se é.
Este tema é profundo, desdobra-se em outros inúmeros, e nos leva a questionar qual é o verdadeiro sentido da realização espiritual, o admitir-se pleno e viver o gozo de ser.

O momento para ser feliz é agora, o momento de se desnudar dos valores mentirosos é já, o momento de mergulhar e reconhecer-se divino é inadiável, a oportunidade esta a frente no espelho da consciência. Aqui dentro do peito é o lugar onde nascerá um novo ser, o messias do Amor.

Entrego-me sem resistência ao meu sagrado coração, meu templo solar, entrego-me com urgência a minha suprema presença, que é amor em continua manifestação neste e em todos os planos da natureza.
Reconheço-me como a plenitude que eternamente EU SOU, e me liberto das amarras do medo, para ser e viver com abundancia!

EU SOU AMOR!

Vida plena!

Vajrananda(Diógenes Mira)

Creio e Sei


Creio e sei. Deus existe, Deus é Verdade, Consciência e Bem-Aventurança (Sat- Chit- Ananda).
Eu creio e sei que Deus é Espírito, não tem forma, não tem cor, não tem sexo, não tem nome, não tem preferências.

Creio no Deus Imanifesto e no Manifesto.

O Deus Imanifesto nunca chegará a ser totalmente abrangido pelo intelecto, o manifesto está oculto em toda Criação.

Eu creio que o Deus Manifesto pode ser vivido, nunca compreendido, e vivê-lo é viver o Amor.
Creio que ao experimentar o Amor, estou experimentando de imediato a minha própria essência e Deus em manifestação.

Creio e sei que Deus é Amor, mas o Amor só é quando vivido em liberdade, sem imposições.
Quando no ambiente das relações surgem os “contratos” e as “condições” então já não é mais o Amor e sim um jogo de interesses egoístas fundamentados na insegurança e no desejo de posse.
O Amor não pode ser institucionalizado!

Creio na Liberdade, pois é ela o perfume do Amor. Não a liberdade inventada na solteirice dos bares e bailes, e sim no vínculo, na liberdade vivida junta, em união.

Creio nas relações profundas, vividas em liberdade. O Amor é o céu, mas os entes humanos insistem em transformá-lo numa gaiola, e o prisioneiro não pode ver senão grades, ferros e correntes.

Eu creio na Beleza, e ela acontece no ato da criação, quando o anseio torna-se realização.
Seu nascer é arte, poesia e canção, e o artista é o ser mais próximo da santidade, pois em seu criar deve interromper-se a si mesmo, esvaziar-se do si mesmo, para receber a inspiração e gozar de ser feito enquanto faz, enquanto permite que se faça através dele. E este esvaziar-se permite que se conheça o autor da criação.

Eu creio na Verdade, mesmo que ela doa, mesmo que ela doa em mim mesmo, pois consagrar-se à Verdade é ter a cabeça leve, o peito aberto e o corpo livre, sem escudos, muros e defesas. A Verdade não necessita de defensores, ela não precisa ser defendida, mas sim vivida.

Eu creio no Mestre, não como um ser distante em alguma montanha sagrada - e creio que todas as montanhas são sagradas - nem perdido em algum reino encantado de alguma dimensão inacessível. Creio no Mestre que habita o coração, que se revela nos pequenos gestos, no brilho dos olhos, nos seres de paz. Creio na presença do Mestre no abraço amigo, no partir do pão, no consolo dos aflitos, no silêncio da contemplação.

O mestre é o Amor vivido.

Eu creio que quando dois ou mais estão reunidos em nome do Amor, o Mestre aí está.

Creio em Clarividência, que é a habilidade de ver o UM em todos, ter os olhos claros, isto é: ver de verdade, para além das formas, nomes e papéis que desempenhamos no mundo imaginário que inventamos por tédio. Creio que pelo poder da educação do afeto chegaremos a ver o dia do milagre, quando então todos os cegos enxergarão a unidade indiferenciada que permeia a criação.
Eu creio no Espírito, o sopro, a respiração que me faz crer e saber da vida, que a vida existe mesmo na morte, que uma força trabalha aqui alheia a minha vontade, e que esta mesma força me revela a falácia da palavra: controle.

Eu creio no Bem. Sei que existem mais pessoas ansiando pela paz que pela guerra; no entanto isto só será realidade quando abandonarmos os esforços para alcançar a “minha paz” e passarmos a trabalhar pela “nossa paz”.

Eu creio na Amizade, e nela sei que não existem hierarquias. A amizade é um círculo, uma ciranda na qual todos têm igual importância. A pirâmide e os jogos de poder são contrários à amizade e ao Amor. Ao empreendermos uma longa jornada teremos nossa caminhada mais aliviada e feliz se estivermos acompanhados pelos amigos, apoiando-nos mutuamente. Em união venceremos qualquer obstáculo.

Eu creio na Espiritualidade, livre de bandeiras, livre de ritualismos vazios, livre de dogmas e verdades absolutas, livre de mediunismos caricatos e manipuladores, livre de interesses lucrativos e de uso.

Creio numa religiosidade Natural, onde o templo é a natureza e meu coração o meu altar; o silêncio é minha oração e meu Mestre está em tudo e todos . Minha melhor oferta é reverenciá-lo em meus irmãos e em todas as criaturas.

Tudo isto Creio e Sei. Sei que não estou sozinho, pois a canção que toca em meu peito encontra eco em muitos outros corações, e juntos compomos a sinfonia do Amor em favor de tudo que vive.

Vamos cantar a paz, a alegria e o amor. Vamos dançar em celebração de ser tudo o que já buscávamos, de reconhecer que a jornada não tem fim, pois ela é feita enquanto se caminha.

Vamos juntos cantar e dançar a boa nova: o Amor nasceu e não permitiremos que o crucifiquem!

Vida Plena!

Amém.

Vajrananda ( Diógenes Mira)

Ofereça a outra face

Quão agradecido somos àqueles que nos atacam? Aos que levantam a voz para denunciar em nós aquilo que desagrada, que não confere com o “normal”, estamos agradecidos a estas pessoas?
Seja verdadeiro ou falso o enunciado contra nossa pessoa, já nos colocamos numa posição de total aceitação diante o agressor?

É importante estar atento a estas situações, já que encontramos nelas uma oportunidade rica, imensamente produtiva para nosso autoconhecimento e estudo intimo.

Pois sem o agressor como estaremos cientes da presença da vaidade, do desmedido auto-apreço por uma imagem construída? Aquele que nos agride, é digno de toda a nossa gratidão, por ser um espelho onde miramos nossos condicionamentos. E é digno de toda a nossa compaixão, já que, em verdade, está agredindo a si mesmo, pois busca no ataque ao outro uma maneira de negar e ocultar sua própria mediocridade, sua situação frágil e angustiante.

Em alguns momentos ser quem se é, e tão somente isto, já incomoda e muito. Mas se o outro ao agredir-nos produz em nós o desejo de revanche - que se manifesta como uma reação muscular de tensão – então aquela flor frágil e inquietada pelos ventos do medo – a quem tendemos chamar de inimigo - nos serviu naquele instante de Guru e vai nos ensinar onde ainda nos agarramos na pequena construção e manutenção da personalidade quimérica.

Recordo-me inevitavelmente de uma passagem no evangelho, onde lemos:

“Ouvistes o que foi dito: Olho por olho, e dente por dente: Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; (…) Eu, porém, vos digo; amai os vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem;”
Mateus, 5-38:44 (Sermão da Montanha)

A proposta do Cristo está presente também nos ensinos de Buddha, quando declara:
“Vencei o ódio com o amor, a avareza com a generosidade, o erro com a verdade, o mal com o bem.”

Dar a outra face é oferecer o SER diante do efêmero “parecer”. É manter-se fiel à Verdade transcendente da Unidade, o que não significa mera passividade e covardia. Declaramos a verdade que somos e vivemos em bom tom, com tranqüilidade, sem nenhum rancor, apego ou medo, simplesmente declare sua verdade íntima sem pretender que outros assumam para si aquilo que você considera verdadeiro.

Por que os outros não concordam contigo não significa que sua verdade seja uma mentira. Da mesma maneira, por não encontrar fundamentos sólidos na crença dos outros não devemos nos indispor com ninguém, pois a Verdade é muito ampla, e cada qual vai aperfeiçoando o seu olhar, a sua capacidade de abrangê-la (ainda que seja tarefa colossal pretender conhecer a Verdade inteira; diria até que isto é coisa de filme, do tipo “missão impossível”).

Quando resolvemos viver nossa verdade, obviamente encontraremos opiniões adversas as nossas e, algumas vezes, aquilo que acreditamos e vivemos pode parecer a outro algo ameaçador. Especialmente quando nossa verdade rompe com padrões morais muito rígidos e fortemente acoplados às mentalidades coletivas.

Se optar viver sua liberdade, esteja pronto a levar alguns tapas, esteja pronto a ser alvo do passatempo predileto dos covardes: a fofoca.

A fofoca é a afirmação do preconceito, e esteja atento, pois as histórias que contamos em fofocas sempre apontam para um vilão e uma vítima, no entanto estes papéis invertem-se conforme o interesse de quem conta.

Eu disse “histórias que contamos”, pois se somos vítimas de fofocas também podemos ser os fofoqueiros em outro momento. Percebo a seriedade que devemos dar a este assunto, já que este jogo de “atacar e defender” é somente mais um recurso psíquico e emocional para continuar dando manutenção ao sofrimento.

Atacando ou defendendo, procuro proteger a imagem do meu “eu”, miragem do desespero no deserto do medo.

Cristo foi alvo de fofocas, Buddha foi alvo de fofocas, Krishna foi alvo de fofocas, todos os grandes representantes da Verdade, do Amor, foram alvos prediletos de fofocas, algumas delas utilizadas como recurso de acusação e execução. Sim, afinal todo o julgamento e condenação do Cristo foram embasados nas fofocas e de maneira simbólica podemos interpretar que a fofoca é a inimiga número um do Amor.

Mas diante do ofensor, daquele que me amaldiçoa, posso ter uma atitude de bendizer e aceitar? Este é o ponto mais importante a se refletir. Penso que ao não oferecer resistência, quando não tomo minha própria defesa, estou defendendo o Amor e não a minha imagem artificial.
Enquanto não aprendo sobre o “desarmar” interno, não poderei saber o que é o amar incondicional.

Dentro das relações, se não consigo ouvir o outro, estar sensível ao que outro pensa e sente, sem gerar internamente contrações e mais contrações (defesas), não posso amar de fato: estarei me sentindo ameaçado pelo outro, ele pode ao apontar meus “desvios”, meus pequenos delitos, colocar em risco a imagem toda “perfeitinha” que tento passar aos outros sobre mim.
Esta sensação de ameaça nos arremessa diretamente à infância, ao dedo em riste de nossos pais apontando alguma traquinagem nossa. É um sentimento horrível de medo e desconfiança, de talvez não receber mais o amor de nossos pais.

E se aquilo que o outro aponta não for verdadeiro, dispensável é toda e qualquer defesa! Mais do que nunca devemos abrir nossos corações e lábios para declarar nossa verdade de forma tranqüila e sem receios.

O segredo é respirar.

Diante desta situação de ser vitimado pela fofoca ou mesmo dentro das relações quando somos chamados para dialogar e esclarecer algo, o segredo é não contrair os músculos, permanecer num profundo estado de relaxamento e abertura ao outro, não fugir das sensações desconfortáveis que podem surgir, nem se identificar com elas (o que resultaria numa defesa apaixonada e emocionalmente desequilibrada) e principalmente deixar acontecer o fluxo livre da respiração.
Neste estado de serenidade poderemos deixar clara nossa posição diante da vida e em caso de erro de nossa parte, admitir e pedir o perdão rapidamente. Este reconhecimento de nossa humana falibilidade remove um peso danado de nossas costas e nos faz livres para amar e receber o amor.

E quando penso neste peso que escoa das costas vem-me a memória outra passagem em que o Cristo nos diz:

"Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e meu fardo é leve."

Vinde ao EU SOU, vinde ao Amor e receba o alivio, o descanso.

Já não percebemos o tamanho do esforço que realizamos para manter uma imagem intocável sobre nós, o quanto é pesado parecer um alguém que não se é. Gastamos muita energia nisto.
Desista de carregar o fardo de parecer e o Amor acontecerá naturalmente.

É uma profunda entrega, uma desistência de si, da imagem projetada. Somente neste abandono no Ser Real é que poderemos ofertar a outra face e seguir abençoando todos os seres, bendizendo os da “oposição” e os amigos verdadeiros que nos acompanham na jornada.

Oferecer a outra face é uma atitude de extrema valentia e coragem. Não se deve confundir esta força de não-violência (Ahimsa) com passiva covardia. Há que se ter muita coragem para assumir quem se é, para libertar-se da necessidade de defender-se e simplesmente Ser.
Ninguém é dono da Verdade, todos nós é que pertencemos a ela.

Encontraremos o tapa e o ósculo, o apoio e a rasteira. Porém independente do beijo ou do escarro, possamos compreender de uma vez por todas que não existem inimigos: tudo e todos são aliados no Despertar, no transbordamento total onde apenas a Unidade prevalece.

O segredo para vencer as fofocas? Sê inteiramente verdadeiro e transparente!

Vida Plena!

Vajrananda (Diógenes Mira)

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Creio e sei


Creio e sei. Deus existe, Deus é Verdade, Consciência e Bem-Aventurança (Sat- Chit- Ananda).

Eu creio e sei que Deus é Espírito, não tem forma, não tem cor, não tem sexo, não tem nome, não tem preferências.

Creio no Deus Imanifesto e no Manifesto.

O Deus Imanifesto nunca chegará a ser totalmente abrangido pelo intelecto, o manifesto está oculto em toda Criação.

Eu creio que o Deus Manifesto pode ser vivido, nunca compreendido, e vivê-lo é viver o Amor.
Creio que ao experimentar o Amor, estou experimentando de imediato a minha própria essência e Deus em manifestação.

Creio e sei que Deus é Amor, mas o Amor só é quando vivido em liberdade, sem imposições.
Quando no ambiente das relações surgem os “contratos” e as “condições” então já não é mais o Amor e sim um jogo de interesses egoístas fundamentados na insegurança e no desejo de posse.
O Amor não pode ser institucionalizado!

Creio na Liberdade, pois é ela o perfume do Amor. Não a liberdade inventada na solteirice dos bares e bailes, e sim no vínculo, na liberdade vivida junta, em união.
Creio nas relações profundas, vividas em liberdade. O Amor é o céu, mas os entes humanos insistem em transformá-lo numa gaiola, e o prisioneiro não pode ver senão grades, ferros e correntes.

Eu creio na Beleza, e ela acontece no ato da criação, quando o anseio torna-se realização.
Seu nascer é arte, poesia e canção, e o artista é o ser mais próximo da santidade, pois em seu criar deve interromper-se a si mesmo, esvaziar-se do si mesmo, para receber a inspiração e gozar de ser feito enquanto faz, enquanto permite que se faça através dele. E este esvaziar-se permite que se conheça o autor da criação.

Eu creio na Verdade, mesmo que ela doa, mesmo que ela doa em mim mesmo, pois consagrar-se à Verdade é ter a cabeça leve, o peito aberto e o corpo livre, sem escudos, muros e defesas. A Verdade não necessita de defensores, ela não precisa ser defendida, mas sim vivida.

Eu creio no Mestre, não como um ser distante em alguma montanha sagrada - e creio que todas as montanhas são sagradas - nem perdido em algum reino encantado de alguma dimensão inacessível. Creio no Mestre que habita o coração, que se revela nos pequenos gestos, no brilho dos olhos, nos seres de paz. Creio na presença do Mestre no abraço amigo, no partir do pão, no consolo dos aflitos, no silêncio da contemplação.

O mestre é o Amor vivido.

Eu creio que quando dois ou mais estão reunidos em nome do Amor, o Mestre aí está.
Creio em Clarividência, que é a habilidade de ver o UM em todos, ter os olhos claros, isto é: ver de verdade, para além das formas, nomes e papéis que desempenhamos no mundo imaginário que inventamos por tédio. Creio que pelo poder da educação do afeto chegaremos a ver o dia do milagre, quando então todos os cegos enxergarão a unidade indiferenciada que permeia a criação.

Eu creio no Espírito, o sopro, a respiração que me faz crer e saber da vida, que a vida existe mesmo na morte, que uma força trabalha aqui alheia a minha vontade, e que esta mesma força me revela a falácia da palavra: controle.

Eu creio no Bem. Sei que existem mais pessoas ansiando pela paz que pela guerra; no entanto isto só será realidade quando abandonarmos os esforços para alcançar a “minha paz” e passarmos a trabalhar pela “nossa paz”.

Eu creio na Amizade, e nela sei que não existem hierarquias. A amizade é um círculo, uma ciranda na qual todos têm igual importância. A pirâmide e os jogos de poder são contrários à amizade e ao Amor. Ao empreendermos uma longa jornada teremos nossa caminhada mais aliviada e feliz se estivermos acompanhados pelos amigos, apoiando-nos mutuamente. Em união venceremos qualquer obstáculo.

Eu creio na Espiritualidade, livre de bandeiras, livre de ritualismos vazios, livre de dogmas e verdades absolutas, livre de mediunismos caricatos e manipuladores, livre de interesses lucrativos e de uso.

Creio numa religiosidade Natural, onde o templo é a natureza e meu coração o meu altar; o silêncio é minha oração e meu Mestre está em tudo e todos . Minha melhor oferta é reverenciá-lo em meus irmãos e em todas as criaturas.

Tudo isto Creio e Sei. Sei que não estou sozinho, pois a canção que toca em meu peito encontra eco em muitos outros corações, e juntos compomos a sinfonia do Amor em favor de tudo que vive.

Vamos cantar a paz, a alegria e o amor. Vamos dançar em celebração de ser tudo o que já buscávamos, de reconhecer que a jornada não tem fim, pois ela é feita enquanto se caminha.

Vamos juntos cantar e dançar a boa nova: o Amor nasceu e não permitiremos que o crucifiquem!

Vida Plena!

Amém.

Vajrananda ( Diógenes Mira)